Wednesday, April 01, 2009

Um dia, um poema

Gosto quando voas.

Também gosto quando caminhas sob a terra.

Seus pés corretos têm a leveza de folha seca.

Desnecessário lentes para flagrar seus gestos, tão meus.

É tarde.

É tarde e você chegou cedo.

Dentro da noite veloz seu corpo de calor e calma

é manso como o mar de minha infância.

De modo que mergulhar em você

é voltar à inocência.

Na noite cai o dia

como eu em seus olhos negros.

Gosto de ti porque tu estás quando não és

e és quando não estás.

Gosto de ti porque tu és (sendo).

Rio, 17-01-2005

Wednesday, July 09, 2008

Para Antônio Gracias, caso ainda se encontre vivo

Fã de cachaça
Fã de Vinicius
Fácil prever meu futuro


Valterlei Borges

Friday, June 27, 2008

Manuel Bandeira

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Wednesday, June 18, 2008

Madredeus

Depois de uma longa ausência, o regresso... ainda sob a magia das 16 horas de duração da mini série "Os Maias", umas das melhores produções já realizadas pela TV brasileira...

Haja O Que Houver

Haja o que houver
Eu estou aqui
Haja o que houver
espero por ti

Volta no vento ô meu amor
Volta depressa por favor
Há quanto tempo, já esqueci
Porque fiquei, longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor...

Eu sei quem és
pra mim
Haja, o que houver
espero por ti...

Wednesday, March 28, 2007

Fascínio

Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço. Aliás,já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.

(Affonso Romano de Sant'Ana)

Friday, March 23, 2007

Affonso Romano de Sant'Anna

Intervalo amoroso

O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxa
se não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

É como se entre um dia e outro
houvesse o vago-dia, cinza,
vida igual a morte, amortecida.

O poema, avulso gesto de amor,
é vão recobrimento de espaços.
O poema é dúbia forma de enlace,
substitui o pênis
pelo lápis
- e é lapso.

Tuesday, March 13, 2007

Outro Mario, desta vez o Quintana

DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

(Do livro "Espelho Mágico")